Nos dias 27 e 28 de fevereiro, a Fundação Julita sediou a 1ª edição da Mostra Artística Periférica (MAP), evento que integra o projeto Formações Artísticas Periféricas, realizado em parceria com o Instituto Arte na Escola. A iniciativa reafirma o compromisso institucional com a valorização da produção cultural da periferia e com a criação de espaços de visibilidade para artistas do território.
Durante a programação, Armr’Ore Erormray, Leandro Celestino e Mariane Nunes, residentes do Programa de Residências Artísticas Periféricas, apresentaram trabalhos desenvolvidos ao longo do processo formativo, que contou com a mediação de Luana Kayodê. As obras evidenciaram diferentes linguagens e experimentações, como fotografia, intervenção performática e produção em miniaturas, refletindo a potência criativa presente nas múltiplas expressões artísticas da periferia.
Em “Desarmonia em Descompasso”, Leandro Celestino constrói um campo visual ritmado, no qual a regularidade geométrica contrasta com a complexidade das histórias humanas condensadas em cada elemento. A obra evoca a imagem de um pêndulo coletivo em movimento, em diálogo com a obra “O Pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco, ao tensionar reflexões sobre poder, desigualdade e as narrativas que atravessam a sociedade contemporânea.
Instalação “Desarmonia em Descompasso” de Leandro Celestino / foto: Júlio Silva
Na performance “Ynvólucro”, Armr’Ore Erormray investiga processos de metamorfose do corpo dissidente a partir das figuras do monstro, da travessia e do tornar-se. A obra propõe um percurso sensorial e simbólico que atravessa normativas de gênero, sexualidade e humanidade, afirmando o corpo como território de transformação constante. A apresentação contou com sonoplastia e performance sonora de Alexys Agosto, ampliando a experiência estética e conceitual da obra.
Performance “Ynvólucro” de Armr’Ore Erormray / foto: Júlio Silva
Já na série “Adinkras: Aya, Sankofa, Duafe, Akofena, Denkyem e Adinkrahene”, a artista Mariane Nunes, também conhecida como Nuna, apresenta imagens reveladas por meio da fotossíntese em folhas naturais. Utilizando a clorotipia – técnica de fotografia alternativa e ecológica que utiliza luz solar e folhas vivas – a artista investiga visualidades e simbologias negras, refletindo sobre memória, ancestralidade e modos de existir que tensionam a lógica acelerada da contemporaneidade.
Exposição “Adinkras: Aya, Sankofa, Duafe, Akofena, Denkyem e Adinkrahene” de Mariane Nunes / foto: Júlio Silva
Com mais de 70 anos de atuação no Jardim São Luís, a Fundação Julita segue fortalecendo sua conexão com o território. A parceria com o Instituto Arte na Escola amplia oportunidades reais de projeção e reconhecimento para artistas que já desenvolvem trabalhos potentes em seus contextos, dialogando com questões sociais, políticas e culturais da periferia.
Para Janio de Oliveira, superintendente da Fundação Julita, o projeto Formações Artísticas Periféricas desempenha papel estratégico na difusão da cultura periférica:
“Essa ação contribui diretamente para o fortalecimento do comportamento cultural no próprio território, ampliando as possibilidades de intervenção artística como forma de leitura da realidade e de desenvolvimento social. Muitas vezes, a arte produzida na periferia permanece invisibilizada, mesmo sendo potente e profundamente conectada às vivências locais. Quando esses artistas ocupam espaços, compartilham suas expressões e dialogam com a comunidade, essa arte ganha projeção, representatividade e reconhecimento.”
Claudio Anjos, presidente do Instituto Arte na Escola, reforça a importância do evento:
“A ideia de fazer essa mostra é apoiar a cultura produzida pela periferia, e levar essa potência e criatividade para que mais pessoas possam conhecer, nas escolas, nos equipamentos culturais, outras cidades, outros estados…”
Claudio Anjos, presidente do Instituto Arte na Escola, e Janio de Oliveira, superintendente da Fundação Julita
A programação também contou com apresentações do grupo de maracatu Raízes da Quebrada, pocket shows com a cantora Dandara e o rapper UPrince, sound system com o coletivo Escambu, oficinas de Maracatu e de Cenas Cotidianas no Desenho e na Pintura, com os artistas Vinicius Cruz e Toiô, respectivamente, além de discotecagem com o DJ Nando. A mediação dos dois dias ficou por conta de Rafa Leonel.
Nuno Ferreira, coordenador do Centro de Educação e Cultura da Fundação Julita, reforça que a iniciativa fortalece as pontes entre o território e o espaço institucional:
“Poder contar com uma programação que privilegia artistas do território, tanto os residentes quanto as atrações de palco, é fundamental para ampliar a referência da Julita no campo cultural. A parceria com o Instituto Arte na Escola garantiu que artistas e serviços contratados fossem devidamente valorizados, além de assegurar a estrutura necessária de palco e comunicação para a realização do evento.”
Nuno Ferreira, coordenador do Centro de Educação e Cultura da Fundação Julita
Para Kevin Martins, conselheiro da Fundação Julita, o acesso à cultura é essencial na construção de identidades e pertencimentos:
“É por meio dela que valores, pertencimentos e modos de existir se expressam e se fortalecem. O evento foi um espaço potente de visibilidade para artistas e multiartistas da quebrada, que produzem arte como lugar de resistência, afirmação e transformação social.”
Kevin Martins e Victoria Farias, conselheiros da Fundação Julita
A Mostra Artística Periférica terá sua segunda edição nos dias 17 e 18 de abril, a partir das 14h, novamente na Fundação Julita.
A MAP integra o projeto Formações Artísticas Periféricas, realizado pelo Instituto Arte na Escola, com apoio institucional da Fundação Julita, patrocínio da VR, Cyrela e Instituto Cyrela, por meio do PROMAC – Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e do Governo do Estado de São Paulo