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Cines Juventude tratam da mulher na periferia

4 de setembro de 2017


Em uma iniciativa do Núcleo de Educomunicação da Fundação Julita, o Cine Juventude é um espaço para o debate, a liberdade de expressão e o exercício da participação social. Neste ano, o Cine Juventude vem trazendo como pauta principal a situação da mulher na periferia.

Ao todo, foram seis edições para discutir assuntos relacionados a essa temática. A dinâmica é quase sempre a exibição de curta-metragem ou documentários de produções independentes (sobretudo da periferia) seguida de bate-papo com convidados especialistas no tema. Cada evento reúne em torno de 100 pessoas, grande parte são jovens educandos e ex-educandos da organização.

De acordo com Leidyla Nascimento, educadora do Núcleo de Educomunicação da Fundação Julita, a temática em torno da mulher começou a ser discutida em março devido ao “Dia Internacional da Mulher”, mas foi necessário ampliar a discussão. “Percebemos que falar sobre as questões relacionadas à mulher é um assunto que tem interessado muito aos participantes do Cine Juventude e somente um dia de discussão não seria suficiente. Por esse motivo, decidimos desdobrar essa pauta em outros cines”.

 

Confira os temas discutidos nos últimos Cines:

 

Mídia e Feminicídio

 

O tema feminicídio foi discutido em Maio e contou com a participação da Promotora Legal Catarina Lima; de Taís Scabio, cineasta e integrante do Coletivo Cavalo Marinho  e a psicóloga Danielle Silva Braga, do Centro de Defesa da Mulher de Campo Limpo. Foi exibido o documentário “Imagem Mulher ”, do coletivo Cavalo Marinho, que retrata como a mídia contribui para a violência contra a mulher.

 

A mediadora Catarina Lima explicou ao público presente o que era feminicídio e falou das leis de proteção à mulher, por exemplo, a Lei Maria da Penha. Danielle Silva falou sobre os tipos de violência contra a mulher e qual o papel dos Centros de Defesa da Mulher: “No Centro, aparecem histórias muito semelhantes às exibidas no documentário. Nosso trabalho muitas vezes é educacional. É fazer a mulher compreender a condição de ser mulher na sociedade dentro da perspectiva da violência para que ela possa superar e sair dessa condição”, comenta.

A psicóloga também explicou os tipos de violência existentes contra a mulher e alertou aos participantes sobre o perigo de fazer prejulgamento das mulheres em situação de violência: “Quando a gente fala para não julgar a mulher é de fato para fazer isso independentemente de qualquer coisa. Não sabemos o que está se passando com ela. A mulher que sofre violência fica muito fragilizada e vulnerável”, conclui.

Taís Scabio alertou sobre o fato de o audiovisual ser importante para a construção de identidades. No entanto, segundo ela, a mulher geralmente é retratada em situação de violência e “romantizar” isso é muito perigoso.

Afinal, o que é gênero?

O Cine de Junho se propôs a discutir sobre gênero e construção do machismo. Para o debate foram convidados a Promotora Legal Catarina Lima e o professor Marcelo Ganzela Martins.

Catarina Lima abriu o debate explicando que o gênero é construído socialmente. “A visão que temos sobre ser homem e ser mulher é uma construção social e, se não for questionada, vamos crescendo com essas visões, como a de que ‘homem não chora’ ou mulher é o sexo frágil’”, comenta a mediadora.

Marcelo Ganzela falou sobre sua ida à audiência pública em Brasília sobre a retirada do termo gênero na Base Nacional Comum Curricular. Segundo o educador, os deputados acreditam que gênero não deve ser discutido na escola; essa responsabilidade deve ser da família e da igreja.

O professor lembra que, se somente essas instituições abordarem esse tema, seria complicado porque somos formados por diversos espaços sociais além desses, como a escola. “É perigoso quando se proíbe alguma dessas entidades de poder questionar e provocar a outra, pois é por meio do confronto de ideias que você reflete e descobre quem é você.” Ainda de acordo com Marcelo, é muito importante que a escola assuma esse papel, de olhar para a sociedade como algo plural, e poder provocar, questionar aquilo que achamos que já está estabelecido, principalmente a questão de gênero.

 

Vamos falar sobre feminismo

O Cine de Julho abordou o tema feminismo com o objetivo de fazer uma introdução a esse assunto. Para o debate foram convidadas a socióloga Anabela Gonçalves e o Grupo de Estudos Feministas da Sul .

Anabela fez um breve histórico sobre o feminismo no Brasil e no mundo e apresentou algumas vertentes do feminismo moderno: Negro, Liberal, Radical e Interseccional.

O Grupo de Estudos Feministas da Sul explicou sobre os objetivos do grupo e quais estudos levam para as discussões. Já foram realizados cinco encontros, mas o grupo está aberto para novos membros; a dinâmica é horizontal e todo mundo constrói junto. “O estudo e as discussões trocadas no grupo são para repensar as coisas que estão impostas pela sociedade, as pequenas coisas do cotidiano que são machistas e não percebemos”, conclui o grupo.

Empoderamento e Sororidade

Em Agosto foi discutido os temas empoderamento e sororidade. Para exemplificar esse tema, foram convidadas mulheres que, em suas trajetórias de vida, passaram por situações que as tornaram mulheres fortes e empoderadas. São elas: Inêz Martins, Graziela Gomes, Jennifer Nascimento e Danielle Silva, as duas últimas são integrantes “da coletiva” Fala Guerreira. A mediação ficou por conta de Maria Helena Barros, ex-integrante do Núcleo de Educomunicação da Fundação Julita.

Inêz Martins contou que, desde pequena, era uma menina forte, pois sua mãe Francisca foi uma mulher à frente do seu tempo, incentivava a filha a lutar pelos seus direitos e a correr atrás de seus objetivos, a ter um projeto de vida. Segundo ela, esses aprendizados foram passados para suas filhas. Atualmente todas elas participam do curso PLP (Promotoras Legais Populares). Ela aconselhou aos participantes a buscarem conhecimento: “Estudem, pois, por meio do estudo, vão descobrir muitas coisas. Eu continuo estudando, nessa idade, eu procuro conhecimento. Isso é importante pra ajudar as pessoas, as mulheres que sofrem violência”.

Inêz também lembrou que o empoderamento é coletivo: “Não posso pensar só em mim, penso no todo, no coletivo. Estude, esclareça-se, empodere-se em tudo que puder. Seja quem você é! Mas pense no coletivo também”, conclui ela.

Graziela Gomes contou como a experiência de um relacionamento abusivo deu força para que ela se empoderasse e ajudasse outras mulheres que passaram por essa mesma situação. Ela criou o blog Lamonier, no qual dá dicas e conselhos para suas leitoras. “Já recebi muitas mensagens de mulheres que, por meio do meu blog, ganharam força para superar suas dificuldades”, comenta a blogueira.

Já a “coletiva” Fala Guerreira contou sobre o processo de criação da revista e sua importância como espaço de empoderamento de mulheres e garantia de voz das mesmas.

 

Aprofundando a discussão

Para dar continuidade às discussões do Cine Juventude, em Setembro, o Núcleo de Educomunicação da Julita vai realizar o 4º Minifórum de Educomunicação no dia 14 de setembro. O tema deste ano é “A mulher tem direito ao próprio corpo?”.  A proposta é dialogar sobre os aspectos psicológicos, sociais e geopolítico desta pauta que se estende à questão da criminalização do aborto. O evento vai contar com a presença de convidados e especialistas sobre esta temática.

Para saber mais, acesse o evento aqui